Texto por Colaborador: A. Rother 02/08/2026 - 00:00

O presidente da FIFA, Gianni Infantino, "perdeu a confiança" da UEFA depois de um plano para vender participações de uma empresa ligada à Copa do Mundo a investidores privados, segundo comunicado divulgado pela entidade que governa o futebol europeu.

Infantino anunciou durante a madrugada que o plano não seguiria adiante depois que três confederações o rejeitaram, e a UEFA foi além, afirmando que boicotaria as competições da FIFA até que a proposta fosse totalmente descartada.

Apesar de comemorar o recuo, a UEFA afirma acreditar que Infantino perdeu a confiança do mundo do futebol por conta de suas atitudes, classificando o plano como um "acordo vergonhoso, feito nos bastidores, de forma opaca".

"Não podemos continuar assim, com esquemas secretos em prazos acelerados, arquitetados por indivíduos sem rosto e de benefício duvidoso para o jogo. Precisamos identificar os responsáveis e responsabilizá-los", declarou a UEFA.

"É correto que, nos próximos dias e semanas, a UEFA trabalhe junto às suas federações filiadas e em estreita cooperação com outras confederações para refletir sobre como isso aconteceu e elaborar um plano que garanta que isso não volte a ocorrer."

"Essa revisão deve ser minuciosa e profunda. Nenhuma opção deve ser descartada. A atual liderança da FIFA perdeu não apenas a confiança da UEFA, mas também a de muitos outros membros da família do futebol."

O comunicado da UEFA fez referência a um discurso de campanha de Infantino, feito há uma década, quando ele prometeu transparência e afirmou que "o dinheiro da FIFA é o dinheiro de vocês".

A entidade europeia acrescentou: "Em ambas as promessas, ele falhou em cumprir. O acordo vergonhoso e opaco que ele arquitetou e tentou impor nos bastidores foi tudo, menos transparente."

"E com reservas superiores a 5 bilhões de dólares, ele também falhou em usar o dinheiro das federações em benefício do jogo."

"A UEFA começará imediatamente a trabalhar com parceiros e partes interessadas ao redor do mundo e em toda a extensão do futebol para propor uma nova forma de distribuir recursos através do já existente programa FIFA Forward."

"Precisamos começar a usar parte desse dinheiro parado na conta bancária da FIFA para impulsionar o futebol de base e o jogo em geral em cada um dos 211 países da FIFA. Mas não precisamos vender as joias da família para pagar por isso."

"Esta é uma vitória para todo o futebol. Mas isso não pode ser o fim da história. A proposta foi retirada. A tarefa de reconstruir a confiança na FIFA está apenas começando."

A Football Association (FA) reforçou o posicionamento da UEFA. Uma porta-voz da entidade inglesa declarou: "Apoiamos totalmente a posição da UEFA. É hora de uma revisão completa e rigorosa da liderança e da governança da FIFA, para garantir que o futebol mundial seja administrado com transparência, em benefício de todas as 211 nações filiadas e com a gestão de longo prazo do esporte no centro das decisões."

O primeiro-ministro britânico, Andy Burnham, também recebeu bem o recuo da FIFA, afirmando a jornalistas em Manchester: "É a decisão correta."

Infantino buscava aprovação das federações nacionais para criar uma empresa, a FIFA Forward Enterprise (FFE), destinada a administrar aspectos comerciais e operacionais das competições da entidade, incluindo as Copas do Mundo masculina e feminina.

O ponto mais controverso do plano era a proposta de vender uma participação de 20% da empresa a investidores privados. A FIFA confirmou que a Thrive Eternal, fundada por Joshua Kushner — irmão de Jared Kushner, genro do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump — lideraria o grupo de investidores.

Segundo Infantino, a FFE ajudaria a "turbinar" o financiamento ao desenvolvimento do esporte, prometendo até 20 milhões de dólares adicionais (cerca de 15 milhões de libras) às federações que apoiassem o plano até 19 de setembro, além de grandes aumentos ao longo dos próximos três ciclos de Copa do Mundo.

A presidente da federação norueguesa de futebol, Lise Klaveness, crítica de longa data do dirigente suíço-italiano, também divulgou um comunicado afirmando que "todo o sistema de cooperação internacional do futebol foi colocado em risco desnecessariamente em nome de interesses individuais, e não dos melhores interesses do esporte", cobrando uma governança melhor e uma mudança de cultura que se afaste do "medo e do posicionamento político".

Infantino finalmente confirmou, na madrugada de sábado, que o plano não seguiria adiante, depois que a Confederação Asiática de Futebol (AFC) e a Concacaf — confederação da América do Norte, América Central e Caribe — também se posicionaram contra a proposta.

O duro comunicado da AFC, divulgado na sexta-feira pela manhã, foi ainda mais incisivo, pedindo uma "revisão urgente" dos processos de tomada de decisão da FIFA e acrescentando: "Esta não é a primeira vez que os principais interessados são confrontados com iniciativas importantes depois que o rumo já parece ter sido definido."

Após as votações da Concacaf na quinta-feira, fontes próximas à confederação afirmaram que suas 41 federações filiadas estavam perdendo — ou já haviam perdido — a confiança em Infantino.

O assessor sênior do dirigente suíço, Carlos Cordeiro, pediu demissão na sexta-feira, classificando a proposta da FFE como um "mau negócio para o futebol", enquanto o diretor de operações da FIFA, Kevin Lamour, fez duras críticas às atitudes de Infantino, descrevendo a FFE como "o projeto de uma única pessoa".

Lamour acrescentou: "A própria administração da FIFA também foi enganada. Essa omissão ao longo de muitos meses e esse exercício unilateral de poder não são triviais. Eles são um indicativo de falta de confiança, falta de transparência, falta de discernimento, falta de boa governança. E uma séria falta de respeito."

Agora, a grande dúvida é quem poderá desafiar Infantino na disputa pela presidência, com eleição marcada para março do próximo ano. O presidente do Paris Saint-Germain, Nasser Al Khelaifi, teria apoio de setores da UEFA para tentar o cargo, mas o dirigente catariano também ocupa outras posições importantes, como a presidência do European Football Clubs (EFC) e do grupo beIN Media, e fontes próximas a ele indicam que não haveria interesse na disputa. O presidente da Concacaf, Victor Montagliani, atualmente vice-presidente da FIFA, também foi mencionado em reportagens divulgadas neste sábado.

Mesmo diante da derrota em relação à FFE, Infantino sinaliza que pretende seguir à frente da entidade. Ele reconheceu que o episódio "criou divisões", mas afirmou: "Minha intenção é reunir todas as partes interessadas nos próximos dias e semanas, em um espírito de interesse compartilhado pelo nosso esporte, com o objetivo de continuar desenvolvendo o futebol em todos os lugares, especialmente nos países que mais precisam do nosso apoio."





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