Texto por Colaborador: A. Rother 21/08/2026 - 04:00

Quando veio à tona, na terça-feira, que o Fenway Sports Group (FSG) havia vendido cerca de 38% do Liverpool para a 1892 Holdings, um certo grau de confusão era inevitável.

Isso porque, na sexta-feira anterior, a informação circulada era de que o consórcio apoiado por Jeff Bezos havia adquirido cerca de um terço do clube, e a BBC Sport chegou a ser informada de que a especulação apontando o investimento na faixa de 30% a um terço era "buscamente precisa". Por que, então, um número diferente veio à tona apenas quatro dias depois?

A explicação passa pela própria política do FSG, que costuma não revelar publicamente percentuais exatos de participação acionária. Mas, com números já circulando por diferentes fontes antes do anúncio oficial de sexta-feira, o conglomerado de Boston preferiu dar mais clareza sobre a dimensão do negócio e confirmar que as informações vazadas estavam corretas, em vez de simplesmente tratar o negócio como um "investimento minoritário". Quando ficou claro que a fatia adquirida chegava perto de 40%, cresceu a sensação de que o clube havia minimizado o tamanho real do investimento.

O FSG nega qualquer intenção de passar uma imagem enganosa e afirma que a orientação dada foi uma resposta às reportagens da imprensa sobre a extensão do investimento e o envolvimento de Bezos, buscando oferecer mais contexto do que normalmente costuma fornecer. Ainda assim, a sequência de acontecimentos levou algumas pessoas ligadas ao Liverpool a questionar, em conversas reservadas, por que o grupo não foi mais transparente desde o início, evitando essa confusão.

Qual será o grau de envolvimento de Bezos?

A 1892 Holdings é comandada pelo empresário britânico-indiano Amit Bhatia e conta ainda com a participação do bilionário Eduardo Saverin, cofundador do Facebook. Já Bezos, fundador da Amazon e quarta pessoa mais rica do mundo — com patrimônio estimado em US$ 256 bilhões (R$ 192 bilhões) —, vive sua primeira experiência como investidor no mundo dos esportes, mas não deve integrar o conselho administrativo do Liverpool.

Quem vai representar o lado de Bezos no conselho de Anfield é Bryan Baum, sócio do bilionário e fundador da gestora de capital de risco K5 Sports, veículo usado para o investimento. Elaine, esposa de Saverin, também terá assento no conselho, assim como Bhatia, que passa a ocupar o cargo de vice-presidente do clube.

Outro ponto de atenção: a BBC Sport já havia noticiado, na sexta-feira, que o acordo previa a possibilidade de o consórcio ampliar sua participação futuramente. Quatro dias depois, a emissora britânica apurou que existe, de fato, uma cláusula específica permitindo que o grupo assuma o controle majoritário do clube nos próximos 12 meses — o que reacende as dúvidas sobre a transparência de todo o processo.

O que vem pela frente para o Liverpool?

A cláusula que permitiria à 1892 Holdings se tornar acionista majoritária dentro de um ano não representa, porém, um compromisso formal. Ainda assim, o simples fato de essa possibilidade constar no acordo levanta questionamentos sobre qual é, de fato, o plano de longo prazo do FSG para o clube.

Jay McKenna, presidente da associação de torcedores Spirit of Shankly, comentou o assunto ao Liverpool Echo: "Uma das perguntas que faremos é sobre a garantia que recebemos dessa mudança de propriedade. Queremos entender isso e questionar a FSG e os novos proprietários."

"Se nos dissessem que os investidores não têm o direito de [concluir uma aquisição total] ou se é apenas uma opção, e depois, no verão seguinte, o clube for vendido, então vamos querer saber por que não nos disseram isso."

Vale lembrar o contexto histórico: quando o FSG comprou o Liverpool, em 2010, por 300 milhões de libras, o clube estava, nas palavras do atual CEO Billy Hogan, "literalmente à beira da falência". Dezesseis anos depois, o novo acordo avalia o clube entre 5 e 6 bilhões de libras — um valor mais de 15 vezes superior ao pago originalmente.

"É um ótimo negócio para a FSG", resumiu à BBC Sport o especialista em finanças do futebol Kieran Maguire. "Eles geram mais de £1 bilhão com o negócio e ainda mantêm o controle - isso representa o melhor dos dois mundos."

A pergunta que fica é: por quanto tempo o FSG seguirá no comando? Mesmo tendo sido anunciada como uma participação minoritária, a parceria representa, sem dúvida, um movimento de peso para o futuro do Liverpool.

Segundo apurou a BBC Sport, a motivação por trás do negócio vai além do aspecto puramente financeiro: a ideia é ajudar o clube a expandir sua presença global em áreas como negócios, tecnologia e investimentos, incluindo mercados como Índia e o restante da Ásia. O FSG acredita que os efeitos dessa parceria começarão a aparecer nos próximos meses — período que também deve ser marcado por incertezas e especulações sobre quem, de fato, estará no comando do clube no próximo verão.

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