Texto por Colaborador: A. Rother 09/08/2026 - 03:00

Ninguém viu vir. Com pouco mais de três semanas para o fechamento da janela de transferências, o Liverpool fechou o empréstimo do capitão do Barcelona, Ronald Araújo, de 27 anos, numa das movimentações mais surpreendentes e desconcertantes do mercado europeu neste verão. Sem nenhum rumor consistente preparando o terreno, o uruguaio reservou um voo para Merseyside. Bizarro.

O acerto resolve um problema imediato e real. O Liverpool simplesmente não tem zagueiros experientes o suficiente. Giovanni Leoni (19) e Jeremy Jacquet (21) são promessas, mas chegam sem um minuto sequer de Premier League. Joe Gomez está lesionado. Ibrahima Konaté e Andy Robertson já saíram. Conor Bradley enfrenta problemas físicos recorrentes. A diretoria sabia de tudo isso há meses — e ainda assim chegou à véspera da estreia com o setor defensivo em frangalhos. O clima, inevitavelmente, é de pânico.

Araújo vai além de tapar o buraco imediato. Com mais de 200 jogos pelo Barça e três títulos de La Liga no currículo, ele oferece a Iraola um recurso que o restante do elenco não tem. Sua versatilidade para atuar na lateral direita — posição que pode ser necessária já na primeira rodada, caso Jeremie Frimpong não se recupere a tempo — é um bônus considerável. E a opção de compra incluída no contrato sugere que o clube vê nele algo além de uma solução paliativa.

Os riscos, porém, são reais e precisam ser ditos.

Os torcedores do Barcelona não escondem o alívio com a saída. Os últimos anos do uruguaio no clube foram turbulentos. Uma expulsão contra o PSG nas quartas de final da Champions 2023-24. Na temporada seguinte, entrou aos 76 minutos numa semifinal contra a Inter de Milão e contribuiu para os dois gols sofridos nos minutos finais de uma derrota por 4 a 3. Depois, em novembro, uma entrada violenta em Marc Cucurella resultou em vermelho direto — foi a gota d'água para Hansi Flick perder a confiança no jogador. O período culminou num afastamento do futebol por motivos de saúde mental, após o que Araújo pediu para ser poupado.

O histórico físico também preocupa. Desde 2021, lesões musculares, problemas recorrentes no tornozelo e no joelho acompanham o zagueiro com uma frequência que não pode ser ignorada.

Por outro lado, o potencial de renascimento é genuíno. Araújo chega sem custo de transferência — apenas salário —, o que é bem diferente de contratações desesperadas como a de Ozan Kabak durante a pandemia. Ele chegou ao Barça diretamente do Boston River, do Uruguai, saltou para o time principal sem empréstimo e se tornou titular num dos maiores clubes do mundo. Isso não é pouca coisa.

Iraola trabalha com uma linha defensiva alta e exige dos seus zagueiros a leitura de jogo e a liderança que Araújo, nos seus melhores momentos, tem de sobra. As condições para um recomeço existem. E o uruguaio tem motivação para usá-las.

Se funcionar, o Liverpool terá feito um negócio brilhante. Se não, entra para a lista vergonhosa que inclui Arthur Melo, Ozan Kabak, Nuri Sahin, Aly Cissokho e, nos confins da memória, Steven Caulker. O clube precisa muito que não seja assim.





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